Todos os dias antes de começar a estudar/pesquisar faço um pequeno ritual. Organizo minha mesa, minhas canetas, meus estojos. Checo a altura da cadeira. Separo os livros que vou utilizar. Desligo a recepção wireless do meu Macbook (ok, a internet está lá, mas simbolicamente não está mais - não tem umas barrinhas me dizendo que estou conectada e pra mim isto basta). Abro os documentos que vou usar. Abro uma "folha em branco" no Open Office e separo ao meu lado um macinho de folhas em branco reais e minhas canetas favoritas. Isto normalmente não dura mais que cinco minutos. Cinco minutos preciosos, porém. É por causa destes cinco minutos que consigo concentrar mais que minha energia mental ou simbólica, mas também minha energia física nas tarefas que tenho que realizar.
Os rituais foram e são (e quem sabe serão) sempre formas de atualizar, transformar em ato físico, uma estrutura simbólica de relações. Alguma coisa que está lá na nossa cabeça. Com pequenos rituais, acabamos concentrando e direcionando energia física para o que estamo prestes a fazer. É como se criássemos uma disposição inicial do corpo que acaba apoiando a mente na tarefa.
Rituais podem ser religiosos ou não (como é o caso do meu pequeno ritual de estudos). Podem ser praticados em grupo ou em solidão. Podem ser coletivos ou individuais. Podem ter objetos próprios ou apropriarem-se de objetos.
Nascida e crescida em escolas e família atéias, não tenho e nunca tive religião. Religiões institucionalizadas simplesmente não encaixam na minha forma de sentir e pensar o mundo - o que não quer dizer que seja assim para todos, claro. Por muito tempo minei minha relação com a minha própria espiritualidade por não entender como isto era diferente de ter uma religião. Fechar as mãos e ajoelhar-me para rezar era o mesmo que estar em posição de lótus para meditar. Eu achava, porém, que de alguma forma isto era diferente dos cinco minutos de concentração e respiração profunda que eu era acostumada a fazer antes de executar uma sequência de formas num exame de kung-fu. Achava que "rezar" era a maior bobagem. Achava que comunicar-me com qualquer coisa que não fosse humana era simplesmente ridículo.
Um dia descobri que aquilo com o que eu me comunicava era nada mais nada menos que eu mesma, o resto do mundo, a humanidade, a minha compreensão do que estava ao redor. Mas não foi fácil.
Na minha vida, sobretudo a partir da minha adolescência, uma série de fatos traumáticos chacoalhou a minha existência: minha irmã menor foi atropelada quando voltávamos eu e ela de ônibus da escola e passou dias no hospital, fez cirurgias, fisioterapia, ficou de cadeira de rodas, coisa e tal; o irmão de 7 anos do meu melhor amigo morreu num acidente horrível de carro em que ele estava presente e viu tudo, tornando-se uma pessoa triste; este mesmo melhor amigo morreu num acidente de carro um ano depois na mesma estrada, e tinha 15 anos; meu namorado-companheiro mudou para uma cidade que fica a 6 horas de onde moro, prestou vestibular para tentar voltar, conseguiu, mas eu não consegui e fui morar no interior; minha vó descobriu que estava com câncer; terminei meu namoro; meu pai foi embora de casa no dia do meu aniversário; comecei a trabalhar "a sério" pela primeira vez na minha vida; namorei um cara que era muito dependente da família e não gostava de mim tanto assim, me perdi na paixão e gastei energia demais tentando fazer o namoro funcionar, em vão; minha avó morreu de câncer; a mãe de um grande amigo morreu de câncer e nos afastamos. Tudo assim, nessa ordem e desse jeito. Os terremotos duraram uns bons - péssimos - cinco anos, sem parar.
Parece até engraçado agora. Quer dizer, quem em sã consciência rejeitaria a oferta de fazer terapia pra ajudar a lidar com tudo isso?
Ladies and gentlemen, eu. Eu mesma.
Era como se a minha estrutura estivesse sendo fortemente golpeada de todos os lados. Ao invés de deixar os pedacinhos que caíam lá, no chão, pra depois olhar para todos e me reconstruir, não. Necas de pitibiriba. Eu pensava que isto era para os fracos. Que eu era forte demais, inteligente demais, boa demais para deixar pedacinhos por aí. Pior, eu achava era que os outros tinham que achar isso de mim. Ou continuar achando, já que pintar uma imagem de indestrutível e inabalável sempre foi minha estratégia mais óbvia de fuga.
No fim destes cinco anos, no meu segundo ano de faculdade, esta estrutura totalmente remendada ainda fingia que era uma coisa só, íntegra. Não, eu não aceitava terapia de jeito nenhum. Pra mim, na época, não tinha nada de errado comigo, eram os fatos da vida, totalmente aleatórios, que não me ajudavam. Coisas que eu pensava que não estavam ao meu alcance. Terapia era para gente fraca, desequilibrada, que não tinha oportunidades na vida, que tinha sido maltratada ou sei lá o quê. Por que eu, que tinha um emprego bom, um salário bom, um currículo bem bom pra minha idade, domínio de duas línguas estrangeiras, vários rolos/casos/ficos/lovers além dos namorados bacanas que tinha tido, estudava na segunda melhor universidade do país, era independente, viajava, já tinha saído do país, estava de viagem marcada para a Inglaterra, começando a fazer pesquisa, conseguido bolsa de iniciação científica... Por que era que EU tinha que ir pra terapia? Aquilo, eu achava, não era pra mim. "As coisas vão se ajeitar, vou achar alguém, vou fazer mais amigos..."
Ledo engano.
Fato é que as coisas não "se" ajeitam. As coisas não "acontecem" como fatos aleatórios. É possível, sim, ter muita consciência e "acontecer" coisas, "ajeitar" coisas. Não sabendo disso, entrei num buraco negro. Buraco negro pelo que sabemos hoje é um vácuo no espaço sideral, que por ser vácuo suga violentamente toda matéria para si. No processo a matéria desaparece, se destrói, se desintegra, tamanha a violência. E o vácuo continua lá, vácuo. Sem alimentação. Vazio. Pois eu estava assim e a foda de estar assim é achar um jeito de colocar alguma matéria lá no buraco negro, fazendo o vácuo ir embora. Quanto mais vácuo, mais violenta a força, menos matéria e, portanto, mais vácuo (de novo). Percebem a periculosidade do processo?
Nesta época, simplesmente tudo na minha vida começou a dar "errado". Quer dizer, todas as coisas que eu tentava fazer davam errado - mesmo com todas estas coisas "positivas" que eu disse antes que me inibiram de procurar ajuda terapêutica. Aluguei um apartamento com uma conhecida mais próxima, bem perto de onde eu trabalhava e bem longe de onde eu estudava. Tudo no meu nome. Ela foi embora depois de dois meses me deixando completamente na mão. Logo em seguida a companhia de luz inventou uma dívida de 7 mil reais no meu nome. Tudo isto foi logo depois que a minha avó morreu. Aí meu namoro terminou de um jeito horrível, porque meu ex não teve coragem (THE FUCKING GUTS) de me dizer que não queria mais ficar comigo. Meu trabalho me parecia cada vez mais sem sentido e as pessoas que trabalhavam comigo de certa forma me enojavam (claro, tinha muita gente bacana lá, pessoas que viraram muito queridas MESMO, mas não foi a maioria nem de longe). Resolvi mudar de casa. Processei a imboliária (outro trampo infernal) pra não pagar multa e consegui um lugar provisório na casa de umas (santas) amigas. Perto da universidade.
Nenhum destes fatos, nem a bolsa que eu consegui, me fizeram melhorar o ânimo; não me pareciam sinais positivos (é, eu estava mesmo cega). Eu estava oficialmente infeliz.
Não só infeliz, mas desesperada. Minha existência era um peso, um fardo que eu tinha que carregar. Era como se eu não tivesse me olhado no espelho por anos. A estrutura remendada começou a fraquejar e cair, bit by bit. Passei a faltar nas aulas. Não lia mais os textos. Chegava do trabalho e dormia. Tomava banho, comia alguma coisa toscamente preparada (eu, que sempre amei cozinhar), dormia de novo. Não via mais filmes. Não dava comida pro gato. Não limpava a caixa de areia. Me irritava desproporcionalmente com um lindo, fofo e alegre filhote de gato, o Theodoro. Trancava ele na varanda pra não ter que lidar com a bagunça nem com o trabalho. Não limpava o chão. Não entrava mais no escritório para estudar. Não terminei de desempacotar minhas coisas. Dormia, dormia, dormia. Às vezes acordava, conseguia olhar o que estava acontecendo. Tentava falar comigo mesma no espelho. Gritava. Chorava alto. Gritava. Puxava meus cabelos. Até bater a cabeça na parede eu bati - achava que eu merecia a dor; eu tinha que ser muito imbecil pra ter tanta coisa boa na minha vida e ainda estar infeliz.
Uma noite liguei desesperada pra minha mãe (ah, sempre a mãe). Pedi pra ela ir no sábado na minha casa me ajudar a empacotar tudo. Quando penso agora, lembro que era notável no semblante dela a preocupação comigo. Se ela não tivesse ido lá, sei lá como é que eu teria juntado forças pra mudar de casa, empacotar e tudo mais.
Como é que ela, minha mãe, me deixou chegar neste ponto? Na época eu nem me questionava sobre isto. Hoje entendo e agradeço profundamente as atitudes que ela tomou. Primeiro, ela me ofereceu terapia. Tentou e tentou me convencer a abandonar meus preconceitos, que eram mesmo preconceitos. De nada adianta. Quem não entende que tem que buscar ajuda e não vê que tem problemas nem consegue ser ajudado. Isto é fato. Quando eu estava no buraco negro e estendi a mão pra fora, porém, ela foi a primeira a agarrar. Com a firmeza necessária quando se agarra uma estrutura despedaçada como a minha. Até que ela estivesse reconstruída.
Bom, no final das contas mudei de casa. Me demiti. Fiz um tratamento de terapia alternativa com um terapeuta que morava perto da casa onde eu estava hospedada. Tive um pouco de dificuldade de achar um lugar novo pra morar, mas achei. Fui viajar pra Inglaterra. Encontrei meu irmão, que na época morava fora, e viajamos juntos. Achei que estava perfeitamente boa. Mas era só a base da minha estrutura que estava novamente de pé. E eu estava tendo problemas sérios em colocar e manter qualquer coisa sobre aquela base. Minha auto-estima não estava restaurada e cheguei a ficar deprê por causa de um cara que me deu um beijo numa festa, de quem nem mesmo me lembro o nome hoje. Quando descobri que ele tinha namorada. E-DA-Í? E-DA-FUCKING-Í? Foi ridículo. E foi quando percebi que o processo de cura seria muito mais lento e muito mais profundo.
Fui atrás da minha primeira terapeuta, que me ajudou a iluminar - e muito - meus caminhos. Ela estava morando no Nepal há um tempo atrás. Descobri que minha dor não era por causa de um namoro, de um cara, do trabalho, do lugar pra morar... Era o amigo que tinha morrido, a figura da avó, um certo trauma com o pai, a relação com a irmã mais nova, a mãe, a ausência e a presença do irmão mais velho... Descobri que tudo isso ia demorar pra mudar. Mas eu estava, finalmente, decidida.
Ainda estou neste processo, mas com uma estrutura muito mais sólida. Ufa! É como se a terapia tivesse me ajudado a olhar cada pedaço que tinha caído de mim. No começo tinha alguns que eu nem queria ver. Talvez porque doíam demais. Meu pai, meu amigo morto, minha solidão e distância dos amigos tanto do colégio quanto da faculdade. Meus namoros fracassados. Agora, pouco a pouco, eu vou pegando os pedaços um a um, olhando bem pra cada um deles, cuidando... e só quando ele volta a estar num lugar novo na minha estrutura simbólica/psicológica é que eu passo pro próximo pedaço que ainda está no chão. Ou melhor, que está numa bacia onde eu consegui pelo menos juntar todos eles. Já é uma vitória. E que vitória!
Acho que o processo do buraco negro acontece no inverso também. Alimentando-se de matéria, mantendo a matéria, geramos mais matéria. Hoje estou bem mais tranquila, as coisas vão de vento em popa, tudo acontece com mais facilidade, "smoothly". Consigo criar oportunidades, ajeitar coisas a meu favor, me relacionar bem melhor com as pessoas. Todas elas. Não daria pra chegar aqui, penso, remendando a minha estrutura quebrada e quebradiça, sem o baque da destruição e do buraco negro. Acho que nunca me conheci tão bem.
É quase como se a terapia fosse pra mim um ritual. É mais do que só um espaço onde meus surtos são bem-vindos e aproveitados por mim mesma como oportunidade de aprendizado. É mais do que um espaço para trabalhar o que sinto ao invés de sair por aí despejando este caminhão de sentimentos, frustrações, sensações e inseguranças nas outras pessoas. É um ritual. Sair de casa, pegar o ônibus ou andar até a sala da minha terapeuta (que já não é mais a mesma, mas é genial igual), pensar durante o intervalo de sessões em questões que me afligem e fatos que me incomodam, me entristecem, me mobilizam. Relatar fatos. Pensar junto. Sentir e dizer como eu me sinto quando certos pensamentos vem. Sentir de novo, reviver. Enfrentar. Racionalizar.
A cada dia saio com mais perguntas, com as minhas forças concentradas em mim mesma e no rumos da minha vida, esta nova tarefa que por tanto tempo ignorei.

4 comentários até agora... dá o seu?:
É Mari..
Que história!!! Qto tranco que a vida de deu..
E vc tá aí...firme, lutando para se reerguer e ....está conseguindo!
Isso é o mais importante...vc está saindo dessa!!!
A vida se encarrega agora de dar novos rumos, tenha fé..
Tudo se ajeita!!!
Adorei seu blog..
Já está nos meus favoritos!!!!
Bjo enormeee
pois é! E sabe que demorou muito pra eu entender que era um puta de um tranco e que eu mereci cair? hehe
Na verdade já saí da depressão, ainda bem, mas o processo de reconstrução psicológica não é fácil... ainda mais com as pressões do mundo de hoje entrando na vida adulta.... afeee! :D
Que bom conhecer mais uma leitora via comments! Teho outros blogs por aí, fique à vontade para lê-los tbm!
Beijão!
Gostei de sua história. Confesso que fui atraído pelo título, pois sou ateu mas cresci em um lar cristão. Não me arrependo de ter optado por não crer. Afinal, tudo é uma questão de escolha. Já que as portas da percepção( alusão direta ao livro) me fizeram observar a existência e a não-existência sob um prisma mais amplo não tenho o porquê querer voltar à caverna. De qualquer maneira respeito profundamente a fé alheia, portanto, toda e qualquer crença religiosa pode não ter nenhuma validade para mim, mas sei da imensa importância que isso tem para a humanidade.
Estou passeando pelo seu blog e aproveito para parabenizá-la por este trabalho. Abraços.
Ari
Nossa... difícil até comentar. Esse encontro consigo mesma é sempre espantoso. E absolutamente necessário.
Uma psicóloga de quem já fui paciente falava que as pessoas se agrupavam em "analisados" e "não analisados". E é meio verdade mesmo... Aos poucos a gente vai ficando meio impaciente para quem é cego ao se olhar no espelho.
Parabéns pela sua força. Lindo esse seu depoimento.
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